Minha Aventura

Compartilhe suas experiências com o mundo
Expedição Pico da Neblina 2009 terça-feira, 30 de março de 2010 | Valdinei Costa
A CONQUISTA DO IARIPÔ

Por Valdinei Costa


Estamos no quinto dia de caminhada. Saímos do acampamento base por volta das 08h00, depois de uma noite muito fria e úmida, devido à forte chuva do dia anterior. Agora deve ser por volta das 14h00, creio. O frio não estimula a procura pelo relógio, escondido sob o anorak. Lembrei em olhar as horas na câmera fotográfica, mas ela está por alguns momentos sem bateria, pois eu a colei no meu corpo tentando aquecê-la, uma vez que a última foto mostrou carga quase no fim, por causa do frio. O tempo não está ajudando em nada.
Seguimos subindo a encosta rochosa da montanha mais alta do Brasil, o Pico da Neblina - ou Iaripô, como o chamam os Yanomamis.
Minhas pernas parecem formigar. Lembro rapidamente de toda preparação feita ainda em São José: avaliação física, consulta com Nutricionista, exercícios muito bem orientados na academia. E penso no que seria de mim se não conseguisse alcançar os quase 3000 metros de altitude. O que faria ali, no meio do caminho, enfrentando um frio quase insuportável sabendo que o retorno aconteceria somente no dia seguinte? Não há opções. A única é mesmo subir com todo o grupo e por isso nos preparamos tanto.
Vejo à minha frente o Traíra, o Marcelo, a Dra. Carol e Carole, numa imagem que me acompanha desde cedo: pedras sendo superadas, cordas agarradas e uma vontade danada de chegar lá em cima. Pior: onde está esse tal “lá em cima”? A cortina de neblina não nos deixa ver nada, a não ser os colegas logo à frente. É fácil entender o nome da montanha.
Neste momento a melhor coisa a fazer é não lembrar os causos contados pela equipe de apoio, avisando que muitos ficaram pelo caminho, inclusive alguns do Exército, que tantas vezes já fez este percurso. Prefiro não acreditar que poderíamos fracassar, como já aconteceu com tantos. E tocamos subindo.
Num determinado local o Marcelo avisa que pararíamos ali. Além de ser o último ponto com água disponível para enchermos nossos cantis, precisaríamos aguardar o segundo pelotão de nossa equipe, que vinha logo atrás, pois a orientação da trilha ficaria cada vez mais difícil em função da pouca visibilidade. E isto significaria correr riscos desnecessários. E aí sentimos frio de verdade: com a parada o corpo sentiu o vento gelado nas costas, depois de retirada a mochila. Pensamos no quanto aquele frio todo parecia incoerente e até antagônico: ao mesmo tempo, temperatura e latitude beirando a zero, tornando o equador irreconhecível.
Depois de uns 30 minutos, Francis, Raquel, Marcus e Humberto surgem em meio ao branco da serração. Aldo e Quiquinho também. Todos param e procuram algo para comer. A farofa que a Raquel improvisa na xícara, feita com farelo de biscoito e patê de atum seria impensável em meio à civilização, mas ali estava ótima. Comemos doce, granola e bebemos suco.
Acabada a última pausa da subida, retornamos à trilha, agora todos juntos. Nova sequência de pedras soltas, pernas doloridas, respiração difícil e frio intenso. Engraçado como perdemos a noção do tempo. Hoje, escrevendo, tento lembrar quanto tempo se passou da última parada para descanso até a chegada ao cume, mas fica difícil imaginar. Só mesmo vendo as informações das fotos para saber. Talvez obra do cansaço, talvez da ansiedade em chegar logo, não sei. Entre um esforço aqui e outro ali, levantei minha cabeça, num daqueles momentos em que você acredita que verá algo diferente. E vi! Vi logo acima uma bandeira do Brasil, a menos de 10 metros acima de mim, em meio a tanta neblina! Estávamos no topo, no cume da mais alta montanha do Brasil! Estes últimos metros fiz correndo (não sei onde arranjei forças) e comemoramos muito lá em cima! Era inacreditável, mas estávamos no ponto mais alto da montanha mais difícil que subi até hoje: o Pico da Neblina!
Em meio a tanta névoa, percebíamos que estávamos num pequeno platô, onde armaríamos nossas quatro barracas (capacidade máxima). Ainda eufóricos, nos abraçamos muito e fizemos muitas fotos. O Francis e o Marcus gravaram alguns depoimentos. O Marcelo saca uma garrafa de Whisky e o carioca um charuto (!). Neste momento de comemoração, tudo é válido, tudo é festa.
Para surpresa geral, de repente o céu começou a abrir bem à nossa frente, mostrando toda a beleza da floresta amazônica. Fotos, filmagens – foi uma correria só. Mas valeu muito. O lugar revelou toda sua beleza.
Difícil foi voltar à real e lembrar dos 2 ou 3 graus lá em cima. Estava realmente muito frio. Enquanto a equipe de apoio preparava a comida, troquei de roupa e deitei dentro da barraca, pra tentar me aquecer um pouco. Mas sei que não fiz a melhor escolha, uma vez que precisaria sair dali pra comer. Foi cochilar e ouvir todo mundo gritar que o jantar estava pronto.
Comemos feijão enlatado com macarrão e farinha. Dispensável dizer o quanto aquilo estava bom, a exemplo das demais refeições dos outros dias. Comemos com gosto e em seguida todos começam a se ajeitar pra dormir. Sob a lua cheia (raramente visível), dormimos o sono da conquista, fizemos o descanso merecido, após superarmos tal desafio. Conseguimos!

Este é o relato do nosso último dia antes de alcançarmos o topo do Brasil, na Expedição Pico da Neblina 2009. Foram 8 meses de planejamento e jamais imaginávamos o quão emocionante seria. Tudo foi muito intenso, desde o reconhecimento da cidade de São Gabriel da Cachoeira no primeiro dia, passando pela convivência com os Yanomamis e chegando à conquista da montanha. Quantas pessoas você conhece que já tiveram a mesma oportunidade? Sim, também tivemos esta mesma dificuldade: como obter informações sobre tão grande aventura, se não conhecíamos ninguém que tivesse ido até lá? E por isso resolvemos contar, falar, mostrar. Aos que desejarem se aventurar pela mesma trilha, enfrentando lama, barcos apertados, insetos, calor e frio em excesso, dores, marimbondos, cansaço, buscando um sonho que só os montanhistas entendem, podem escrever para nós. Afinal, jamais poderíamos convencê-los de que tudo isto foi tão grandioso se vocês não forem lá para sentir também o que é esta aventura, na maior floresta tropical do mundo, a Amazônia.


- Integrantes da equipe:

Valdinei Costa – Eng. Ambiental – São José dos Campos/SP
Humberto Machado – Eng. Mecânico – São José dos Campos/SP
Francis Maglia – Eng. Mecânico – Rio de Janeiro/RJ
Raquel Miranda – Enga. Mecânica – Rio de Janeiro/RJ
Marcus Maglia – Filósofo – Florianópolis/SC
Carol Heringer – Médica – São Gabriel da Cachoeira/AM
Carole Ruffinen – Farmacêutica – Manaus/AM

- Contatos do autor:

valcosta2010@gmail.com

http://valdineicosta.blogspot.com/

Perfil

Sobre o author
Valdinei Costa

E-mail:
valcosta2010@gmail.com

Cidade:
São José dos Campos/SP

Sobre mim:
Engenheiro ambiental, fotografo e amante de viagens de aventura.